Trópico de Câncer e o Calor da literatura de Boudoir

 Trópico de Câncer, Henry Miller (1934)

O livro começa com uma citação do Ralph Waldo Emerson, um poeta e filósofo muito admirado por Henry Miller.
Sobre o surgimento de um tipo de escrita autobiográfica como a expressão de um novo estilo. Mas para que isso surgisse seria preciso que o homem pudesse separar aquilo que ele viveu da escrita que produziria sobre sua experiência. Uma mistura de autobiografia enfeitada com os volteios e os coloridos da ficção.

Mas é bem possível que no caso do Henry Miller sua imaginação tenha sido até tímida se comparada com a intensidade das experiências que ele viveu.
O período narrado em o trópico de câncer cobre os meses entre 1928 e 1929 quando ele viveu em Paris com sua segunda esposa June.
Mais tarde ele voltou a Paris e só voltou aos Estados Unidos com o início da segunda guerra mundial.
O livro foi lançado em 1934, publicado com o apoio da escritora francesa Anaïs Nin, mas foi proibido nos Estados Unidos até a década de 60.
Por que o livro tem esse título?
E conta o período que ele viveu em Paris com pouco dinheiro mas muitos amigos. Dependia de amigos ricos para comer e para ter um lugar para dormir e sobretudo ter uma cadeira e uma mesa onde pudesse trabalhar no seu livro.

Mas o Henry Miller é um autor que incomoda. Linguagem rápida violenta vulgar, machista até. É preciso acertar o nosso ritmo nossa respiração nossas expectativas com a sua narrativa, temos que acompanhá-lo e aceitar viver aquilo que ele viveu e escreveu.
Da mesma forma que demora para nós acertarmos com ele e aceitarmos seguir com a leitura, também demora para conseguir achar uma escrita uma forma de falar sobre ele que o acompanhe sem parecer preconceituosa, temos que abandonar os ismos para embarcar nisso e dar conta do livro.
Vamos ter que encarar uma literatura que mistura ereções e intestinos, algo bem telúrico é algo com que os adolescentes e jovens não têm muito problema.
Li esse livro pela primeira vez há muito tempo, e me deliciei com essas histórias. Sempre fui muito nerd e estudiosa e poder ler todas essas aprontações do Miller parecia melhor do que eu mesma ter vivido mesmo que um décimo de tudo aquilo. Era um misto de voyeurismo, admiração, arrogância de expectador da plateia, sabem?
Aquela posição, aquele olhar, a bunda acolchoada perto o suficiente para ver de tudo é longe o bastante para saber que nunca precisaria estar ali para saber como é viver aquilo tudo. Foi muito bom, foi como viajar com ele, andar por uma Paris que não conheci assim e que jamais existirá assim novamente.

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