O mestre de Petersburgo, J.M. Coetzee

Oi, Pessoal

Hoje eu trago pra vocês um vídeo sobre um livro incrível que eu já li 2 vezes e que, se tivesse mais tempo e menos livros para ler, eu leria de novo. Dá pra devorá-lo em 2 tardes ou no espaço de um dia mesmo, como você preferir. Ler essa obra é como visitar a Rússia imperial!

O interessante é que a narrativa tem aquele gostinho de Rússia, de romance de Dostóievski e sem sê-lo. O Coetzee nos faz mergulhar na São Petersburgo e na juventude da época (1867-1869), ambas devastadas pelos movimentos anarquistas. O ápice do livro é o encontro de Dostóievski com Nietchaiev, o líder mais importante  dos diversos grupos de jovens que semeiam assassinatos e ataques na cidade em nome “da justiça do povo”.

A história nasce a partir de uma possibilidade aberta na realidade. Quando Dostoiévski volta a São Petersburgo, entre 1868 e 1869. O livro mistura os sonhos conturbados de Dostóievski, sua vida de jogador, suas dívidas e sua vida no exterior, em Dresden, na Alemanha, com sua segunda esposa, Ana Grigorievna. Fazia 2 anos que ele acabara de escrever o Jogador. (1866-7)
O livro começa com a chegada de Dostóievski à cidade de São Petersburgo, retratado como um homem alinhado e sério que desce de uma carruagem e pede ao cocheiro que lhe aguarde. Ele entra num edifício de apartamentos onde espera obter notícias de seu enteado: Pavel Aleksandrovitch. Trata-se de uma pensão cuja dona é Ana Sergueievna. Ela e a filha Matryona vivem no endereço e alugam cômodos para jovens. Um deles era Pável.

          Em sua permanência na cidade, Dostóievski vai à polícia em busca dos papéis que pertenciam ao enteado e lá conhece o comissário Maximov com quem tem um interessante debate sobre os grupos revolucionários da época.
Ele também conhece Nietchaiév, um jovem revolucionário, vazio de qualquer moral ou limite, e que disfarçado de mulher recruta jovens de classe baixa pela cidade.
Nosso personagem Dostoiévski reflete sobre essa figura e chega à conclusão de que nas palavras desse jovem não há anarquismo ou nihilismo. O que esse revolucionário encarna é algo de original, de próprio mas que encontra eco na juventude russa.

A ação pura sem ideias, o fazer, o sensualismo. A ação levada ao seu extremo.

Há uma passagem em que se explica o motivo pelo qual Pável era considerado um suspeito, que estava sendo vigiado pela unidade de polícia do delegado Maxímov. Pável teria escrito um conto em que um ex-prisioneiro ataca um aristocrata. E daí o interesse da polícia pelos papeis encontrados em seu quarto.

Mas o que Dostoiévski espera com esse retorno a uma cidade do seu passado que pululam de credores loucos por colocar as mãos no escritor?

Ele quer descobrir a verdade sobre o fim do enteado Pável, se foi assassinado pela polícia, por representar uma ameaça vinda do seio desses grupos revolucionários, ou se ele se enforcou.Na medida em que Dostóievski se aproxima desse estilo de vida dos revolucionários de 1869, e reunindo o que ouvira da conferência de Nietcháiev em Genebra, ele passa a imaginar que a hipótese de suicídio não pode ser descartada posto que o movimento prega qualquer tipo de ação em nome da Vingança do povo.

Certos trechos do livro que tratam de um grupo de costureiras, de jovens finlandesas e de esconderijos por uma São Petersburgo fria e chuvosa na qual nosso Dostóievski está apreensivo, esses cenários me remeteram de imediato a um livro que comprei mas do qual só li algumas páginas: “O que fazer?”, do Nikolai Tchernichévski uma obra das mais inspiradoras da revolução de 1917, e que deve ter inspirado o esboço de um dos contos que estão no livro ou de algumas dessas personagens femininas.

O livro no geral transmite uma atmosfera de sonho, de bruma, de delírio de Dostóievski, também revela uma paixão e uma doença: a necessidade de escrever, de precisar de um grande sucesso em 1869. A urgência em afastar as crises de epilepsia. Esta é a época posterior ao sucesso de “Crime e Castigo”, publicado em 1866. O personagem de Raskolnikov era um ídolo para a juventude russa, e o Dostoiévski de Coetzee é alguém que acredita que o livro foi mal compreendido pelos russos, em geral, por aqueles que são seus leitores.
Coetzee também aborda a relação entre os estudantes e a polícia e nos deixa com uma grande vontade de saber mais sobre as universidades na Rússia.
Se eu tivesse que escolher uma música para ilustrar o livro, ela seria “casa do oriente”, do Schuman. Pois há aqui a combinação de sugestão, de incerteza, medo, e sobretudo, de sonho e desejo.
Coetzee retrata Dostoiévski inspirado pelo suposto encontro com Nietcháiev e com a descoberta do diário e das cartas de Pável, seu enteado, que realmente existiu.
Aqui no quarto habitado por Pável, com seu passaporte retido pela polícia, impossibilitado de retornar à Alemanha, ele vive o frio de São Petersburgo escrevendo sobre um verão na cidade, com moscas, umidade e mosquitos. e essa escrita é a gestação dos personagens principais de “Os demônios”, finalizado em 1872.

Inspirado pela complicada relação que existe entre jovens e velhos, entre as gerações, pela suspensão da diferença entre as gerações, pela perversão nas relações entre pais e filhos, entre adultos e crianças. Seria Stavroguine a representação de Nietchaiev??
O que o Coetzee retrata e que eu achei brilhante é o pagamento que Dostoiévski tem que fazer em troca da fama, esse tormento de gestar e realizar personagens tão hediondos e transportá-los para a escrita. Em troca da fama que a escrita lhe trouxe e do dinheiro que ele não se cansa de perder na roleta, ele paga com o tormento de imaginar e de dar liberdade a “seus demônio”, que no fundo, são um pouco os demônios de todos nós.

O Mestre de Petersburgo, J. M. Coetzee

 

 

 

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