O Homem da areia: conto famoso de E.T.A. Hoffmann

 

E.T.A. Hoffmann foi um jurista alemão e passou seus 46 anos de vida exercendo essa função paralelamente à composição de peças           

Der Sandman – O homem da areia-, é um conto necessário. Sua leitura é uma experiência! Foi nele que Freud se inspirou para escrever o artigo das Umheimlich, no qual ele teoriza sobre um sentimento de estranheza e ao mesmo tempo de familiaridade que é provocado por uma pessoa ou um objeto, ou ainda um acontecimento. Uma estranha familiaridade.

O HOMEM DA AREIA #Conto de HOFFMANN

Quanto ao conteúdo do conto, sob a perspectiva de um narrador estudante, Hoffmann, analisa uma história que teria se passado com outro estudante de nome Nataniel.

O conto é aberto por 3 cartas: na primeira delas, Nataniel escreve a seu amigo- e irmão de criação- Lothar. Contando-lhe sobre seu estado de espírito atual de intensa perturbação. Essa primeira carta tem uma névoa de desabafos de Nataniel, e ideias confusas. Ele acredita ter visto em seu quarto, na pensão onde mora, um vendedor de barômetros de nome Coppola, com aspecto e maneiras que lembram o advogado Coppelius, um amigo de seu pai. Sua narrativa ao amigo refaz os dias da infância de Nataniel quando seu pai era vivo e recebia visitas misteriosas desse advogado, um homenzarrão rude que detestava crianças. A hora de dormir das crianças coincidia com a aproximação da chegada de Copellius e com a frase de sua mãe sobre as crianças deverem imediatamente ir para a cama pois o homem da areia estava chegando. Embora a mãe tenha dito que o homem da areia não existia, que era um personagem inventado, a babá de sua Irmã havia lhe assegurado contando outra historieta:  o homem da areia jogava areia nos olhos das crianças que não estivessem dormindo, os olhos caíam cheios de sangue e o homem os levava para servir de alimento a seus netos. Esse esclarecimento entre aspas da babá o acompanha até a sua juventude e é mais um ingrediente do seu delírio e da sua exasperação. Mas naquela época exerceu sobre ele um grande fascínio.

O homem da areia me tinha posto na pista do maravilhoso,- confessa Natanael- do fantástico, que se abrigam naturalmente no espírito das crianças”.

Nessa mesma carta, Natanael relata ainda um episódio traumático em que escondido no escritório do pai, ele viu quando junto a Coppelius, seu pai se debruçava na lareira enquanto Coppelius gritava, preciso de olhos! Natanael saiu apavorado de seu esconderijo e foi agarrado por Coppelius que estava prestes a arrancar os olhos do menino quando seu pai interferiu, pedindo que poupasse o filho. Sentindo ter os membros torcidos por Coppelius, que dizia querer ver como funcionava o mecanismo dos pés e das mãos, Nataniel teve uma convulsão e desmaiou.  Lembra-se apenas de ter adoecido por semanas e semanas até ter recobrado a consciência.

A segunda carta, quem escreve é Clara, a noiva de Natanael, a seu pretendente. Ela lerá a carta endereçada a seu irmão e responderá da forma mais racional e consistente às aflições de seu noivo. O que é um momento excelente para o leitor que fica sabendo então da história de vida do personagem. Passamos assim a questionar a plausibilidade do relato de Natanael que pode ser uma mistura de sonho, folclore infantil europeu, predisposição psíquica ao susto, ao horror, e a certas palavras e imagens que cercaram seus primeiros anos de vida.

Clara então esclarece o aspecto compartilhado da história. O pai de Natanael e o advogado Coppelius eram alquimistas amadores e certa vez, durante um experimento com elementos químicos em frascos e fogo,houve uma explosão que levou o pai à morte. Coppelius fugiu e nunca mais foi visto.

“Vou falar com toda a franqueza: creio que todas essas coisas horríveis e apavorantes, relatadas por você, existem apenas em sua imaginação e que a parcela de fatos reais e concretos é muito pequena.”(Carta de Clara)

Tentando acalmar o noivo, ela lhe diz que suas aflições vêm de algo que o habita e que se ele conseguir trazer essa parte ao controle racional,poderá se ver livre das aflições e temores que sua imaginação lhe apresentam.

Essa parte deve ter sido uma das mais inspiradoras para Freud, pois tratam de uma “potência hostil, oculta lá dentro de nós, e que tenta nos destruir”Essa descrição será a base do conceito de inconsciente na psicanálise e de outro conceito também muito importante que é o da pulsão de morte.

É “uma potência que se desenvolve dentro de nós mesmos” à medida que “evoluímos” e teria que necessariamente “ocupar o nosso eu”. Uau! Chega a ser lindo de ouvir. Essa é uma ideia cara aos escritores do romantismo alemão cujas obras Freud devorou e que marcaram um dos eixos de seu pensamento.

“É o fantasma de nosso próprio eu que, através de seu íntimo relacionamento conosco e de sua profunda influência sobre nossa alma, nos precipita no inferno ou nos transporta aos céus” (Trecho da Carta de Clara).

Clara é a psicanalista do conto, ela percebe o ato falho de Natanael quando este escreve seu nome acima do nome de Lothar. Ela logo interpreta que mesmo que ele não lhe escreva há muito tempo, sabe que ele a tem sempre no pensamento e no coração.

A Terceira carta é de Natanael para Lothar,lamentando que Clara tenha lido sua carta anterior e que esteja a par

 

 

 

Análise!

O conto tem a proporção de um romance, em termos do número dos acontecimentos e da sua dimensão psicológica. Nataniel poderia ser um caso clínico bem detalhado, envolvendo o relato do personagem-paciente e os relatos de parentes e amigos próximos que o acompanharam nesse adoecimento.

O tema dos olhos. Belli occhi. A cena em que vê Olímpia sem os olhos, com as órbitas vazias e se tem a ideia de que ela portava olhos humanos, arrancados de uma pessoa.

Os nomes dos personagens e o que significam: Clara,Coppola, Coppelius, Nataniel, Lothar, Olímpia, Spalanzani

A parte com Olímpia é pateticamente romântica. Nataniel se apaixona por um autômato inventado pelo professor Spalanzani e por Coppelius.

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