Madame Bovary, minha leitura do romance de Gustave Flaubert [Parte 1]

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Madame Bovary, vídeo 1

Madame Bovary, vídeo 2

I

Madame Bovary, c’est moi, d’après moi.

Flaubert nasceu em Rouen na franca em 1821. Seu pai era cirurgião chefe do hospital de caridade da cidade, a mãe de Flaubert também era filha de médico  e a família vivia num apartamento úmido e escuro, destinado ao pai em função de sua profissão.

Gustave era sempre deixado em segundo plano. Seu irmão mais velho era um aluno brilhante e mais tarde sucedeu o pai no posto de cirurgião chefe.

Era um aluno mediano, mas sempre gostou de escrever. Já Foi inclusive suspenso por indisciplina. Fundou aos 13 anos com um amigo um jornal manuscrito intitulado Art et Progrès.

Ele começou a estudar direito em 1841 mas abandonou o curso em 1844 depois do primeiro ataque epilético.

Seu pai morreu e lhe deixou uma herança de 1/2 milhão de francos o que lhe permitiu levar uma vida dedicada à escrita.

Teve uma amizade íntima e coloridA com a poetisa Louise Colet com quem trocou cartas e mais cartas contendo suas  reflexões sobre o papel e o trabalho do escritor e sobre as relações entre homens e mulheres.

Flaubert fez outras tentativas literárias e se vocês lerem uma educação sentimental e um coração simples não vão achar nada em comum com o madame Bovary. São contos posteriores mas É como se o Flaubert tivesse mudado seu modo de ver a vida, de ver o mundo, de ver as mulheres.

era um Flaubert romântico ainda que desiludido,

Apassivado, expectante.

Madame Bovary traz um Flaubert audacioso, superior que assiste sem emoção ao ocaso da sua personagem que mais tem a ver com ele. Mas não é uma crítica a ele, é só uma observação de algo que me surpreende. Porque esses textos mais românticos são posteriores ao madame

Bovary.

Mas enfim vamos lá ao romance.

Flaubert começou a escrever madame Bovary em 1851 e foi uma escrita tortuosa, difícil e desigual. Alguns trechos fluíam muito bem, rapidamente e outros levavam dias e meses para tomarem forma de texto no papel. O que ele achava que lhe tomaria um ano ao foi concluído em 1856, 5 anos depois.

Madame Bovary foi publicado em 6 tomos entre 01/10 e 15/12 de 1857 mas um ano antes, o Ministério público tinha formalizado num processo contra Flaubert que o escritor havia ultrapassado todos os limites que um escritor que respeitasse a si mesmo jamais ultrapassaria.

 

O romance começa com a descrição do primeiro dia de aula de Emma, nossa madame da história? Não!

Ele começa com o primeiro dia de aula de Charles Bovary. Um menino tímido que entrou demasiado tarde na escola, aos 12 anos.  seus colegas

Mais jovens zombavam dele. De sua timidez, de sua pronúncia provinciana, de seus trejeitos.

Na parte em que Flaubert descreve o ambiente da sala de aula, ele se coloca no ambiente como se fosse um observador que assiste ao fiasco do debutante charbovari na escola.

Não sei se ele se coloca como um dos personagens um narrador-personagem ou se escrever sobre isso faz o narrador se lembrar de sua época de liceu.

Foi alfabetizado e educado pela mãe. Seu pai dissipou toda a fortuna herdada do sogro e apesar de deixar o filho livre para perambular pela casa. Colocava o menino para dormir num quarto não aquecido, uma vida espartana para constituir um verdadeiro homem, ele achava que não valia a pena investir em educação tão cedo e Ian fazendo em casa o que era possível. Por economia a escola só lhe aconteceu tarde na vida.

O pai lhe ensinou a beber rum e a ofender as procissões.

Charles Bovary sabia o mínimo para não ir para a classe inferior mas seu sotaque e suas construções verbais eram pobres e risíveis.

O professor lhe mandou copiar em latim ridiculus sum, je suis ridicule.

II

Duas observações que eu gostaria de fazer e que me esqueci no primeiro vídeo  mas melhor deixar para o último vídeo.

1- poderíamos pensar que o charles lembra muito o próprio gustave Flaubert, o nosso autor. aquela posição de Aluno mediano mas acho que lembra mais aquilo que o Flaubert quis deixar para trás.

Continuando com a vida de Charles. 

De madrugada, batem à porta dos Bovary pedindo com urgência a presença de um médico pois um dos proprietários de uma fazenda próxima teve uma fratura na perna e precisa de assistência.

Flaubert faz certas partes do livro parecerem com o ritmo lento e soporífero de uma velha carroça cortando a lama alta das estradas na época chuvosa no campo. Lentidão, falta de firmeza, cansaço, monotonia. No caminho ele vai torcendo para que seja uma fratura fácil de resolver e se esforça para se lembrar dos exemplos das aulas que teve.

Nesse ritmo Charles se dirige à fazenda Bertaux para tratar o proprietário viúvo e conhece sua filha Emma! Ele não só cura a perna quebrada mas faz amigos. E assim ele volta para ver o doente mas também para ver Emma, uma figura que lhe agrada.

Heloísa, a esposa, estranha suas idas frequentes à propriedade e rapidamente ela se inteira da existência de uma demoiselle, de uma moça bela e solteira. Morrendo  de ciúmes ela pede a Charles, na verdade, o faz prometer que nunca mais voltará lá.

Ele obedece.

Mas se isso fosse uma tragédia entraria agora um coro avisando dos misteriosos caminhos do destino ou dos deuses e eis que algo inesperado acontece naquela rotina modorrenta num tipo de cidade em que nada acontece. Numa espécie de cidade/ vilarejo sonolento.

Descobre-se que a rica viúva não era tão rica assim. Surge um notário de uma cidade maior próxima a Tostes e ele traz a notícia de que algumas propriedades serão confiscadas para o pagamento de dívidas e no final de tudo, só resta ao casal viver na propriedade em que já moravam e lidar com essa notícia. Mas os pais de Charles fazem um rebuliço, o pai acusa a mãe de não ter arranjado para o filho um casamento vantajoso e ambos acusam a esposa de Charles, Heloise de ter mentido e etc. 

ela fica atordoada pelo sofrimento e pela tragédia financeira, ao acordar certa manhã ela suspira, exclama oh, meu d’us e morre.

Provavelmente por conta de um ataque cardíaco.

Charles vive um luto verdadeiro, com a morte de Heloísa ele percebe que a amava de algum modo. Ou estaria ele apenas acostumado a ser controlado e orientado em sua vida. Será que esse luto também não é uma mistura de perda dos antolhos, de perda da rigidez do referencial que determinava quase todos os seus atos?

Flaubert descreve os passos de Charles, seus hábitos retomados depois dos primeiros dias e ele me parece mais perdido, fora de um aquário do que propriamente perdido.

Ele parece não saber o que fazer de sua vida.

Todos no vilarejo sentem pena dele e olham para ele com uma pena infinita do jovem e belo viúvo que ele é, o que ele representa na cidade.

Ele logo retoma o contato com os Rouault. E assim seu convívio com Emma se torna frequente e ele passa a observá-la melhor. O trabalho de suas mãos quando ela costura na cozinha, a forma como ela toma licor. Acha-a agradável mas Flaubert não planta na cabeça dele a reflexão de que a ama. Ela lhe parece agradável reformular essa ideia, não está muito precisa. No lugar disso, sua imagem não lhe saía da cabeça e a frase repetitiva que lhe assomava “e se você se casasse com ela”…

Ele não conseguia dormir. Estava com a garganta seca de tanto desejo. Ele se levantava para beber água, abria a janela e olhava na direção da fazenda Bertaux.

Depois de se consumir por algum tempo com a imagem de Emma e com a pergunta e se eu a desposasse?

Ele decidiu que não perderia nada se tentasse e prometeu a si mesmo que faria a proposta assim que a primeira oportunidade surgisse mas ele tinha um medo terrível de não encontrar no momento as palavras adequadas.

O pai de Emma já tinha percebido que Charles ficava ruborizado perto de sua filha. Ela não lhe era de grande valia para os negócios ou para o trabalho na fazenda. Tinha excesso de espírito para a cultura, o piano. Não era o genro que ele imaginava mas era instruído e de boa conduta, e sobretudo, ele não faria uma querela com relação ao dote. O pai de Emma estava com muitas dívidas. Gostava do bom e do melhor e não economizava com o que gostava. 

Precisaria vender algumas terras para pagar dívidas e despesas e assim resolveu consigo mesmo que se Charles pedisse a mão de Emma, ele a daria de bom grado.

Assim ele começou a maquinar a ocasião para que Charles fizesse a proposta. Convidou o viúvo para passar 3 dias na fazenda e ao final do séjour, Charles balbuciou Maître Rouault, Maître Rouault, quero dizer algo ao senhor. E o pai de Emma o interrompeu e formulou ele próprio a pergunta que intimidava Charles tanto pela timidez e temor pois não sabia como apresentar seu desejo quando era preciso colocá-lo em palavras e de forma respeitosa.

Assim o pai de Emma apresentou à própria filha a proposta e disse a Charles que lhe daria um sinal, colocando um lenço na janela da Cozinha da casa principal da fazenda.

 

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