Kafka e a Boneca Viajante , livro de Jordi Sierra i Fabra

Um dia eu vou enquadrar o mar que vejo da janela do meu quarto. Porque quando escrevo algum material para os vídeos eu me sento de frente para o mar, do alto, mas de modo a poder vê-lo e a sentir a brisa que começa e vai varrendo tudo desde o horizonte.

O mar e as viagens… mas também poderia ser um parque e as viagens diárias que são feitas no seu terreno.

Nesse terreno, nesse espaço mítico do parque é que Kafka vai resolver uma equação dolorosa que reune uma boneca perdida e uma menina em prantos. A pena do escritor faz uma incisão na realidade e lhe dá um desfecho inesperado.

Alguém que criava universos possíveis com a sua escrita, Kafka se vê diante de uma grande tarefa, já no final de sua breve vida, quando ele já se encontrava aposentado, por conta da tuberculose, de sua carreira de funcionário de uma companhia de seguros, no início dos anos 1920.Essa tarefa é encarar uma experiência que o narrador da história, o escritor espanhol Jordi Sierra i Fabra, formula tão bem na seguinte pergunta: “Por que a dor infantil é tão poderosa?” (Jordi S. i Fabra, p. 21).

Kafka gostava de caminhar pelo parque todas as manhãs, antes de começar a escrever. Essa informação nos é dada por sua companheira na época, Dora Diamant, 15 anos mais nova que ele, e seu último amor. Numa dessas manhãs, o choro forte e convulsivo de uma menina irrompe a atmosfera agradável do parque e chama a sua atenção. Um Kafka hesitante, não sabe se deve se aproximar daquela menina, ou se deve continuar no seu banco (um homem se aproximando de uma menina sozinha?!, como isso poderia ser interpretado pelos demais transeuntes??) mas acaba cedendo ao impulso de ir ao encontro dela e de lhe perguntar o porquê do choro.

Da resposta da menina Elsi, emerge esse último desafio da experiência, Kafka responde com sua subjetividade de escritor. Pergunta o nome da boneca e tomando a resposta da menina pela mão, toma posse desse nome e cria uma BONECA VIAJANTE para apaziguar aquela dor tão eloquente e nua!

Kafka diz a Elsi que sua boneca viajara para conhecer o mundo, que já chegara à idade em que as moças/as bonecas se emancipam e devem deixar a casa dos pais para conhecer a vida. Mas que ele, Kafka, era um carteiro de bonecas e iria lhe trazer com certeza cartas de Brígida.

O homem kafka é atingido e convoca o escritor, ou é o escritor sempre à espreita em qualquer lugar onde está na busca por uma boa história, que convoca o homem a se manifestar a acolher a dor pela boneca perdida?

Talvez essa fosse a única forma que Kafka conhecia para lidar com as menores questões da vida: escrever, criar.

Essa história foi contada por Dora ao mundo, muito depois da morte de Kafka, nenhuma carta apareceu, nenhuma menina se identificou com essa notícia, e levantou o braço, agora já de adulta, de idosa talvez, e disse: “Era eu aquele menina soluçaste”. De todo modo, Jordi i Sierra se serviu dos dados disponíveis sobre a história, a lenda, talvez, e reconstruiu o ocorrido como uma história apaixonante que encanta crianças e adultos!

Por isso  decidi ler esse livro, que só pelo seu título, já demonstrava ser uma promessa maravilhosa (que se concretizou com a leitura) e fazer um vídeo para vocês:

Kafka e a boneca viajante um romance que reconstrói uma tarde inesquecível para uma menina e para um homem tuberculoso.

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