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“Antes do baile verde”, Lygia Fagundes Telles – 2a Leitura de Abril

2 de maio de 2018

Oi, Pessoal

Hoje nós vamos entrar no universo humano da Lygia Fagundes Telles, onde vamos ver a vida sob a ótica de homens e mulheres. É muito mais do que um universo feminino, porque aqui a mulher e o homem, como gêneros em oposição, não competem pela sensibilidade e pela liberdade. Eles estão juntos numa mesma jornada em que não têm outra escolha a não ser a de trilhar seus caminhos da forma “menos pior” possível.

Isso pode soar em princípio cruel e negativista mas também poderá ser sábio ou delicioso e vai depender de como você se identifica com os personagens e com os seus dilemas de vida. A forma como você sofre com os contos também tem o colorido das suas particularidades: dos seus defeitos e  das suas habilidades.

Sem mais delongas, vamos lá:

Antes do baile verde, é um livro de contos, escrito por Lygia Fagundes Telles. Publicado em 1970, ele reune histórias muito boas e uma delas empresta seu título ao volume. Mas antes um pouco sobre a vida de Lygia…

Hoje uma simpatissíssima e elegante senhorinha, Lygia é uma das nossas brilhantes escritoras que ainda vivem (ainda bem!), e acaba de completar no mês de abril 95 anos. Lygia nasceu em São Paulo, em 1923, se casou duas vezes e se formou em Direito. Trabalhou como jornalista, professora e é conhecida como uma grande contista, romancista e jornalista. Seu livro mais conhecido chama-se “Ciranda de Pedra”e é bem possível que só tenha se tornado famoso porque a rede globo produziu duas telenovelas baseadas na obra, escrita em 1954.

Em Antes do baile verde, temos 18 contos muito bem escritos mas perigosos se forem lidos de forma muito rápida (armadilha em que eu caí, pois devorei os contos em 2 tardes!):

Eles são:

1. Os objetos.

2. Verde Lagarto Amarelo

3. Apenas um Saxofone

4. Helga

5. O Moço do Saxofone

6. Antes do Baile Verde

7. A caçada

8. A Chave

9. Meia-Noite em Ponto em Xangai

10. A Janela

11. Um chá bem forte

12. O jardim Selvagem

13. Natal na Barca

14.. A Ceia

15. Venha ver o pôr do Sol

16. Eu era mudo e só

17. As Pérolas

18. O Menino

Vou tratar de alguns deles com vocês…Vamos embarcar?

No primeiro “Os objetos”, a história é narrada por um terceiro que observa o diálogo que acontece entre marido e mulher sobre os objetos que trouxeram das viagens: o globo de vidro, a adaga, o anjo. E aqui os personagens discorrem sobre como o amor e o olhar distinguem os objetos e lhes dão o seu valor.

 

“Veja, Lorena, aqui na mesa este anjinho vale tanto quanto o peso de papel sem papel ou aquele cinzeiro sem cinza, quer dizer, não tem sentido nenhum. Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós, muito mais importantes do que nós, porque continuam. (…) precisam ser olhados, manuseados, como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio.”

A mulher oferece outro ponto de vista:

“Pois saiba o senhor que muito mais importante do que sermos amados é amar, ouviu bem?”

A equação globo de vidro+ anjo + a adaga é a chave do conto e representa a vida do casal fotografada naquele breve diálogo que no entanto diz tudo, tudo o que importa.

 

No segundo conto, “Verde Lagarto Amarelo”, é a primeira vez que ouvimos Lygia dar a palavra a um homem. O “Ele” da história é um escritor gordinho que sofre de uma sudorese excessiva desde a infância. Mesmo sendo o mais velho, cresceu à sombra do irmão mais novo: bonito, amado, inteligente e magro.

É fácil nos sentirmos na pele do gordinho que apesar de ter “cortado o açúcar” da sua alimentação não consegue emagrecer e parar de transpirar. Ele vive sozinho e conseguiu fazer sucesso com um romance que está praticamente esgotado. Tudo vai relativamente bem, até o momento em que o irmão decide escrever um romance e leva o resultado final para mostrar a ele.

Na terceira história, “Apenas um Saxofone”, temos uma mulher que relembra sua vida e reflete sobre suas escolhas. Inventariando seus bens, seus objetos, seus amantes (o velho que “cospe” dólares, o jovem que lhe dá prazer, e o sábio que lhe ensina filosofia diretamente de seus lençóis). Ela afirma a si mesma do centro de sua solidão que sua juventude, tudo o que havia de valioso na vida ficara num evento estranho de sua juventude, quando ela fez um estranho pedido ao seu namorado saxofonista.

“Helga” é o título do quarto conto. Desse posso dizer quase nada, para não estragar a “graça”, “o efeito” que a história vai causando em nós, sobretudo no final!!!

Paulo Karsten é filho de uma alemã e de um brasileiro. Na juventude vai morar na Alemanha numa das casas de formação para jovens. Segue carreira militar, vira um soldado hitlerista e termina vendendo alimentos e bebidas no mercado negro. Nesse comércio, ele conhece um farmacêutico e sua filha Helga que vão lhe proporcionar um grande salto na vida. Anos depois ele conta sua história a um analista que lhe sugere algumas interpretações para a permanência de certas lembranças e do nome “Helga”.

O Sexto conto é “Antes do Baile Verde”, uma história incrível, terrível, real demais para não ter acontecido e parece aquele enredo de sonho em que fazemos algo tão humano mas tão alheio a “nossos motivos morais” que ao acordar, desejamos jamais sonhar “assim”, “com isso”, outra vez.

“Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.”

Esta é a fala de Lu, a empregada de Tatisa, uma jovem que espera ansiosa pelo baile de carnaval, ao qual irá com o namorado, ambos pintados de verde, o casal Pierrot e Pierrette.

Tatisa está preocupada em terminar de colar as lantejoulas de sua saia verde. Lu anseia por sair do trabalho e encontrar o marido ou namorado. O pai de Tatisa está morrendo num dos quartos.

Tatisa bebe uísque a largos goles, se irrita com a empregada que lhe pergunta o que será do pai agonizando, enquanto a filha só pensa na decoração, nos últimos detalhes de sua fantasia.

Até pensei nas primeiras páginas do conto que o título faria referência a um baile verde, a um baile imaturo, porque não se realizaria, não se concretizaria, algo aconteceria para impedir que a jovem Pierrette saísse de casa, mas…o resto é com vocês. Preparem-se!

 

Todos os contos são devastadores e maravilhosos, revelam o quanto a Lygia entendia do funcionamento da mente humana e das relações familiares e conjugais. Ela encontra desfechos e espia “cantinhos” inesperados para nos fazer um retrato atemporal do que é o ser humano: do que nós somos realmente, lá no fundo…Talvez nem precisa chegar tão no fundo para começar a ver do que somos feitos.

Homens e mulheres que transgridem e que cruzam em pensamento e até nas ações a fronteira entre o bem e o mal. Ou antes, são personagens masculinos e femininos que mostram que estamos sempre cruzando esses limites: meio cá, meio lá, sempre entre o bem e o mal.

Fiquei apaixonada pela escrita da Lygia. Ela parece um Dostoiévski de saias!!!

Talvez até mesmo melhor do que a grande Clarice Lispector.

Fiz um vídeo no meu canal sobre o livro. Não deixem de assistir e de curtir!

beijos a todos e todas!

até o próximo “Aline & os Livros”!

 

 

 

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