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Cartas a Théo, Vincent Van Gogh

26 de Janeiro de 2018

Vincent Van Gogh, Cartas a Théo

 

Adiei ao máximo o início da leitura do livro, adiei e adiei sempre lendo outros textos antes de começar mas na verdade eu estava com medo de começar o ano numa decaída! Estava com medo de entrar em uma leitura fúnebre e angustiante rótulo que eu estava dando às cartas de Van Gogh a seu irmão Theo e me surpreeendi com o início do livro, pois Van Gogh trata de amenidades. As primeiras cartas são conselhos sobre em quais artistas Theo deveria prestar atenção e quais livros deveria ler. São cartas de um irmão mais velho dando conselhos ao irmãozinho.
Já fiz um vídeo aqui pro canal, vou deixar o link aqui em cima, em que eu falo um pouco sobre os aspectos principais da vida do Vam GoGh, enfatizei mais o período turbulento. Mas hoje gostaria de complementar essas informações com outras que pertencem a um período anterior e mais plácido da vida de Vincent.
Vincent nasceu em 1853, em Groot Zundert, o filho mais velho de 6. Seu sobrenome fez um marco na história dos burgueses eminentes desde o século XVI. Muitos de seus parentes eram comerciantes de arte e apaixonados por quadros. Há ainda tiradores de ouro um nobre ofício no século xviii. Desde pequeno Vincent sempre gostou da natureza e de observar tudo à sua volta. Theo sempre foi seu irmão preferido, embora fosse 4 anos mais novo que Vincent, o pintor o escolheu como seu confidente e companheiro nos longos passeios que fazia pela região onde viviam.
O destino de seu sobrenome o alcança na idade de 16 anos, quando seu tio, também de nome Vincent consegue para ele um emprego na casa Goupil, é nosso pintor que ainda não era pintor mas entrará antes para o comércio de quadros. Assim estamos no ano de 1869.nos primeiros anos no emprego, ele é um empregado modelo, sempre é enviado em viagens e em 1873 chega a Londres. Desta cidade ele começa a escrever a Theo que já tem 15 anos e parece bem maduro e responsável para sua idade.

 

Até achar sua vocação sua missão de vida como pintor, Vincent tentou muitas ocupações. Foi pastor, pregador, missionário protestante, e achava que só encontraria sentido na própria vida de se dedicasse a aliviar a angústia dos outros. Não teve sucesso como pastor e entre seus insucessos sempre voltava a casa dos pais. Até que encontrou apoio emocional e financeiro no vínculo com Theo, seu irmão mais novo.

E com vocês, Van Gogh por ele mesmo!

A primeira carta data de Van Gogh data de 20 de julho de 1873, quando Van Gogh vivia em Londres trabalhando na casa Goupil e lá ele ficaria até maio de 1875. Desse período chegaram a nós apenas 3 cartas.

Nelas, ele sugere ao irmão um tipo de vida interessante: hábitos alimentares, caminhadas e a observação de obras como por exemplo, de rembrandt.
Nessa época Theo já era empregado da Casa Goupil na filial de Bruxelas e Vincent fora transferido poucos meses depois da admissão do irmão para a filial de Londres.

Do período em Paris de maio de 1875 a março de 1876, há 5 cartas. Nelas Van Gogh descreve seus passeios pelo louvre e pelo jardin luxembourg. Fala dos quadros que contemplou, dos seus pintores favoritos e dos traços e elementos da pintura dos artistas que ele acredita serem os mais significativos. Rembrandt, Corot. E enumera as gravuras que colou na parede de seu modesto apartamento em Montmartre.
Recomenda que Theo pare de ler determinados autores como Michelet, Renan e que comece a ler outros como Erckman-Chatrian e acrescenta: “mudar de alimento estimula o apetite”.

Período de Amsterdam(4 cartas a de 3 de abril é um primor! Imperdível!).
Maio de 1877 a julho de 1878
Vincent segreda a Theo seu pavor de prestar os exames de grego quando seria arguido por “doutor professores” o que o faz se sentir “mais indisposto do que os campos de Brabante”.
Na carta de 18 de agosto de 1877 vem então a primeira menção a seu estado de angústia e de flerte com a ideia de suicidio.

Outro aspecto que chama a atenção é sua preferência por quadros com homens e mulheres retratados não plasticamente belos mas figuras humanas cujo olhar ou outra característica demonstre a inteligência da alma “alcançada pela experiência de vida e pelas provações ou desgostos”.

Uma das cartas mais bonitas desse período é a de 3 de abril de 1878 onde há uma longa divagação sobre a vida e sobre d’us se assemelhando mais a um sermão do pregador exitoso que Van Gogh queria se tornar.


Etten (julho a agosto de 1878) 2 cartas

Depois se segue o período em Etten quando com ajuda de seu pai, Vincent consegue ser admitido num curso para missionários e ele está cheio de expectativas achando que conseguirá achar a medida para ser um bom pregador.


Depois vem Bruxelas, onde ele ficaria por 2 meses e lá ele escreveu uma carta impressionante para Theo. Nela ele retrata a paisagem que vê mas de forma que em suas palavras dá pra notar que é como se ele estivesse pintando aquelas imagens que viu, para o irmão. Ele parece estar pintando com palavras, descrevendo as cores de tal forma que ficamos impressionados com a beleza do seu olhar sobre a vida. E aos 25 anos ele entende pra caramba de arte, claro que trabalhar com isso ajuda mas não me parece um olhar de curador, é um olhar de artista.
Nessa carta ele ainda fala de suas expectativas frente à mudança para o Borinage, uma região onde vivem mineiros e suas famílias e ele fala da importância da palavra de um pregador ser levada para aqueles que passam os dias inteiros durante quase toda a semana no coração da terra, trabalhando nas trevas com pouco contato com a luz do sol.

Finalmente em Borinage, lá ele passará o período entre novembro de 1878 e agosto de 1880.

Nesse período ele descreve um passeio que fez de 6 horas na mina marcasse uma das mais antigas e perigosas, famosa pelos frequentes acidentes que ali aconteceram.
E a forma como descreve a Theo os rostos dos operários desta mina, suas casas, aí vemos que ele guarda memórias pra quadros futuros que talvez nem
Soubesse que pintaria mas imagina que como um quadro de Mauve por exemplo este retrato de Borinage seria incrível!
Ele ainda escreve a Theo agradecendo o envio dos 50 francos e lhe conta a forma como acha que a família o vê como alguém suspeito, difícil de lidar e sem nenhuma utilidade, “alguém que não merece confiança”.
Diz que espera um dia poder se reconciliar com o pai mas deposita em Theo a esperança de ser compreendido. Fala dos livros que lê e da saudade do mundo dos quadros e para lidar com a melancolia de não mais viver no mundo de Rembrandt ou Delacroix, ele se enfia nos livros, na Bíblia etc.
 Passagem interessante em que ele faz uma comparação entre os missionários e os artistas. como os figurões de ambos os meios costumam beneficiar seus protegidos e se fecham para missionários e pintores jovens.
Por isso ele Van Gogh está deslocado do meio da arte assim como do meio dos pastores, porque se julga diferente.

Nos vídeos abaixo vocês vão conhecer as primeiras 2 partes dessa correspondência incrível!

 

 

 

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